segunda-feira, 15 de março de 2010

Quem disse que o amor não vai?

O último disco do pernambucano Otto não poderia ter recebido título mais certeiro: “Certa manhã acordei de sonhos intranqüilos”, lançado em 2009, é um trabalho sem começo e sem fim. Ele é todo meio, todo caminho, todo instante, todo sonho, todo real... Reflexões viscerais que não oferecem uma conclusão, uma sugestão, um destino a ser alcançado. Ele conta o que sente e o que se sente não há razão de ser, razão que não abraça ninguém num domingo de manhã, momento exato em que ouvi este disco.

Ambientadas por belíssimos arranjos, com destaques, em minha opinião, para as faixas Crua, Agora sim, Leite e 6 minutos, as poesias que dão vida ao álbum são cuidadosas em dividir e por isso acrescentam tanto. Não há nenhuma sacada genial, não há flerte com a dor de cotovelo: há um equilíbrio raríssimo entre melancolia, fatos e esperança.


“Dificilmente se arranca lembrança, lembrança, lembrança, lembrança...Por isso da primeira vez dói, por isso não se esqueça: dói. E ter que acreditar num caso sério e na melancolia que dizia...Mas naquela noite que eu chamei você fodia... fodia de noite e de dia.” É isso e pronto.


Otto é claro ao compartilhar sua confusão, algo incomum quando se fala em reorganização (ponto de partida para o recomeço), a meu ver, o fio condutor do disco - tanto para quem ouve, como para quem compôs. A razão não abraça ninguém num domingo de manhã.


E.C.

Baixe o disco:
http://www.mediafire.com/?1mjxyzzjdjj

quarta-feira, 10 de março de 2010

Agora é que são elas

Passei por um boteco bem bonito na segunda-feira. Daqueles que têm salsicha rosada ao molho que transmite leptospirose por aproximação, creio. Ciente do perigo, nem entrei. Mas a salsicha me encarava de longe. Teve uma hora que eu tive a nítida impressão de que uma delas se mexeu. Fingi que não era comigo. De longe avistei ainda o que me parecia um ovo amarelado envolto a um veludo marrom-pálido, que decodifiquei como uma coxinha que deveria estar ali curtindo a solidão e entregue ao desinteresse alheio, assim como todos os seres que vivem neste tipo de ambiente.

O ar, que segundo a física é gasoso, nesses ambientes se encontra num estado entre o gasoso e o sólido, estado esse fora das classificações atuais da ciência. O metrô Sé às 18h apresenta fenômeno semelhante. Deveriam estudar isso ao invés de irem plantar feijão no espaço.

Enfim, estava sozinho, como todos ali. Uma meia dúzia de corpos dentro dos seus ternos financiados na Colombo, com a camisa desabotuada e para fora da calça, suados, nó da gravata na altura do peito. Notei que eles trocavam olhares levantando as sobrancelhas, balançando suas cabeças e expirando profundamente pela boca, numa melancólica concordância de discordâncias, buscando conforto por comparação. Na vitrola, a canção A viagem, da eletrizante Roupa Nova, que embora seja boa música de uma boa banda, é requiem.

Olhei para trás e vi uma avenida que meu campo de visão não alcançava o fim. Olhei para dentro do bar e vi o que vi. Abaixei a cabeça, cocei a barba e um esboço involuntário de sorriso nasceu. Lembrei do amor que ainda não me falta. Ainda bem que nem entrei. Fui pela avenida em paz.

E.C.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Para ler o Big Brother

A gente nunca vê o programa todo. Mesmo quem assina o pay per view cochila, come alguma coisa, vai dar uma volta, sei lá eu. Só sei que certamente está perdendo parte crucial do jogo. Aí quando volta para a telinha pega uma discussão no meio e corre para as enquetes virtuais para eliminar aquele grosso, aquele frouxo, aquele machão, aquela exibida,aquela fofoqueira,aquela mentirosa!

Na TV aberta, cujo tempo é restrito, assim como o da vida real, presumo que a direção selecione as situações mais emblemáticas da rotina dos brothers, que são cotidianas a qualquer pessoa: troca de olhares, intrigas, declarações de amor, contradições, ironias, caras e bocas, discussões sobre lealdade. Tipo essas que a gente faz sozinho dirigindo, no metrô ou na cama antes de dormir. Enfim, a edição existe, na TV e na vida, porque o tempo é curto e todo mundo tem mais de uma coisa para fazer, para assistir, para escolher, para julgar.

Fora da casa, mas dentro do jogo, uma palavra mal dita ou não dita, vira enquete: será que eu falo, será que eu não falo? O que quer dizer? Será que eu mando para o paredão? A gente duvida por que não vê o todo. Só que não dá tempo de ver o todo e toda terça tem paredão. No fim das contas, escolhemos com o que temos em mãos. E o que temos em mãos significa o que vimos que fizeram, o que ouvimos que falaram. E não se pode esquecer a edição - a do Boninho e a nossa - além do tempo curto, que sempre nos obrigam a escolher com aquilo que temos em mãos, que não significa o todo.

A convivência, por mais que nos esforcemos, desgasta. Todos nós temos histórias e elas são diferentes. Reações, nem sempre pensadas, são sempre decisivas. É sempre um momento, mas não tem jeito: toda terça tem paredão.

Todos nós assistimos há um vídeo editado do outro, que, às vezes, se expressa mal ou comete uma gafe. As pessoas assistem a um vídeo editado meu, elas não têm tempo. Aí ponderam: ou o que mais agride ou o que mais agrada. E o peso negativo pesa mais que o positivo, sempre.

Já botei muita gente no paredão. Já perdi a conta de quantas vezes era eu no paredão. Só não me lembro de ninguém que não tenha dado mole para a edição.

E.C.

Links

http://www.portalbrasil.net/comportamento_colunas_2003_setembro4.htm
http://bbb.globo.com/

domingo, 7 de março de 2010

Que eu me organizando posso desorganizar...

A ocupação que a ciência de Chico e a Nação Zumbi fizeram de suas alfaias, guitarras, mangues e caranguejos está feita. A trágica morte de Science, porém, abortou a última ruptura significativa da cena musical ocorrida no Brasil depois da Tropicália. Apesar dos esforços e dos bons discos lançados tempos depois pela Nação, Fred Zero Quatro, Mundo Livre e companhia, Science era a imagem, o agente comercial do movimento que colocou Recife nas páginas de cultura do mundo tudo. Ficou, mudou, valeu e ainda é. Mas poderia ser diferente.

A Ocupação Chico Science, em cartaz no Itaú Cultural até 4 de abril, conta um pouco dessa história. Textos na entrada da mostra amarram a realidade do Recife, do mangue, da sociedade, do manguebeat e dos caranguejos à nossa vida, ao nosso habitat. Os lambe-lambes espalhados na primeira sala ao som de “da lama ao caos” trazem o nostálgico entusiasmo transbordado por todos que, encantados, recebiam a boa-nova meio que desconfiados de que aqueles caras estavam fazendo história. E estavam mesmo. Shows em diversos países da Europa, Estados Unidos e nos principais festivais nacionais. Da lama ao caos.

Numa salinha ao fundo, caderninhos com as anotações de Chico e fotos pessoais do arquivo de sua irmã, entre outros materiais, humanizam o mito e evidenciam o comportamento simples a clareza de prioridades que Science aplicava a sua rotina. Família, música, noitadas, Recife. Clareza. Chico sabia o que queria. Neste espaço, o visitante pode sentar num dos banquinhos que ali estão e ouvir depoimentos das pessoas que compartilharam de algum momento com o mangue boy. Envolve.

Os textos produzidos no período, espalhados em uma das paredes, são cheios de ironia, de sarcasmo, mas sobretudo de verdades, que o tempo (ou as autoridades) não cuidaram de mudar. As telas touch screen num dos corredores são interessantes e proporcionam um mergulho no conceito do manguebeat, além é claro da coerente interatividade com o público defendida pelas vielas de Recife ainda no fim dos anos 80. Uma boa opção levando-se em conta o pouco espaço destinado à exposição. Uma das telas oferece um conjunto precioso de publicações de jornais e revistas do mundo inteiro, desde o estouro, até a morte de Science. No entanto, muitos textos estão absolutamente ilegíveis. Mas o esforço vale a pena.

Logo na entrada da exposição o visitante se depara com uma réplica do Landau que Chico guiava pelas ruas da Veneza brasileira. No fim da mostra, chega-se de novo ao símbolo que nos relembra que ele se foi. No porta-malas, um vídeo relata diversos acontecimentos, shows, baladas e entrevistas. Num deles, Rogê conta a história da soparia que abriu e de como ela se tornou o QG da cena cultural do mangue. Num certo momento, ele conta, em tom irônico e orgulhoso, que no começo alguns achavam que aquele espaço era um antro de loucos, bêbados e maconheiros. Como diria Chico: “mas há fronteiras no jardim da razão...”.

E.C.

Links:

http://www.itaucultural.org.br/ocupacao/  
http://www.josuedecastro.com.br/port/bio.html

quarta-feira, 3 de março de 2010

Ócios do Ofício

Na minha alma fim de festa,
Alguns caídos,
Outros já foram,
Eu queria ficar,
Mas a festa já acabou.

Essa noite foi mais,
Além,
Mas não tem jeito, ela passou.
Quem sabe na sexta que vem.

Nostalgia momentânea,
Que não será eterna,
Parece afirmar duas certezas,
Uma da paz e outra da guerra.

Mas a festa já acabou,
Eu aproveitei.
Fui expulso mais cedo.
E eu me divertia tanto,
que o dono da festa sentiu medo.

Eu não queria roubar a cena,
Só fazer parte da festa,
Afinal de contas,
Não é diversão que nos resta?

Mas a festa já acabou,
E eu terei de trabalhar,
A sexta tava boa,
Mas o sábado foi de chorar.

Ócios do ofício
Vamos deixar que aconteça,
Pra eu tentar não me aceitar,
É o "deixar rolar",
É o "tentar enganar",
É a esquiva,
Para não encarar.

Mas a festa já acabou,
E eu sai antes da hora,
Não foi porque eu quis,
Era tarde, era a hora.

Mas a festa já acabou,
E eu sai antes da hora,
Mas eu sei como que é ,
E na sexta vem a próxima.

E.C.

Há pressa


Sinto-me ansioso e tenho pressa.
Sinto-me ocioso e tenho pressa.
Sinto a pressa.
Há pressa.
E se há pressa só o que há é pressa.

A pressa furtou-me a concentração,
e conduziu-me para insegura trilha que eu já não lembro se atravessei ou não.
Estava com pressa, não prestei devida atenção.
Na dúvida, a questão.
Fiz tudo, mas...
Certo ou não?
Parei, pensei, não lembrei. Frustração, inquietação, pressa, desatenção, pressa.
Fiz certo ou não?

Há pressa.
Pressa é lentidão e paralisa mais que falta de organização,
A pressa prende e isola-te.
A pressa demora.
Dúvida é a convicção da pressa.
Pressa é desinteresse total.
A pressa é rasa.

Pressa é uma necessidade vital do mundo real.
Profissional, pessoal, emocional.
Real é que a pressa só dá trégua para que não se confunda uma nota de cem por uma de um real.
No mais, só a pressa merece atenção.
Ou será que não?
Não sei, não sabe, quem prestou atenção?
Mas, enfim, estou com pressa.
Coisas da imaginação.

Na chegada

Estradas tortuosas, curvas, distância.
Os paraísos estão sempre escondidos.
O caminho é longo.
Se chover não há abrigo.

Não tem luz, não tem placas, não tem informação.
É você, a estrada, a solidão.
É preciso cuidado,
Persistência, fôlego e disposição.

Paraíso,
acesso restrito.
Talvez pelas dificuldades,
Talvez pela desinformação.
Paraíso,
De trilha difícil.
Aqueles que chegaram me contaram:
Fé, vontade e determinação.
Vá e atravesse o caminho.
Conduzido pela alma, mente e o coração.
O caminho é duro.
E o destino te conta se valeu a pena ou se tudo foi em vão.

Verdadeiras regras

Os humanos são um barato. Suas atitudes diárias são baseadas em seus instintos, sejam eles vitais, carnais ou emocionais. Ou seja, são animais.

Os humanos utilizam o raciocínio para trilhar seu rumo. Julgam-se inteligentes só pelo fato de raciocinar, como se isso fosse vantagem. A capacidade de raciocinar transmite a falsa idéia de liberdade de escolha, como se essa liberdade de escolha não interferisse na liberdade de escolher e não camuflasse ou confundisse sua verdadeira escolha, que já fora tomada. Falo daquela que você sabe, mas que não assume.

A dúvida do raciocínio nada mais é que a certeza do coração e a busca de argumentação dessa certeza pelo raciocínio. A mudança de comportamento vem pelo sentimento e não pelo raciocínio. O raciocínio atua como um juiz: embasado nas regras do jogo avalia prós e contras de uma determinada escolha. E mesmo assim nunca se sabe o que fazer. Ou seja, não há liberdade de escolha por meio do raciocínio. As prioridades dele são outras, bem diferentes reais. Por isso, cada caso é um caso. Esqueça as regras, elas não são boas para você, que pensa que tem controle.

Encarar a mudança como contradição e não como evolução é contraditório consigo mesmo, afinal de contas, você também pode mudar de opinião. Às vezes para pior, dentro das regras dos humanos. Quantos milionários são infelizes? E quantos miseráveis são radiantes? Teu raciocínio não pode explicar isso. Mas o meu coração pode.