Passei por um boteco bem bonito na segunda-feira. Daqueles que têm salsicha rosada ao molho que transmite leptospirose por aproximação, creio. Ciente do perigo, nem entrei. Mas a salsicha me encarava de longe. Teve uma hora que eu tive a nítida impressão de que uma delas se mexeu. Fingi que não era comigo. De longe avistei ainda o que me parecia um ovo amarelado envolto a um veludo marrom-pálido, que decodifiquei como uma coxinha que deveria estar ali curtindo a solidão e entregue ao desinteresse alheio, assim como todos os seres que vivem neste tipo de ambiente. O ar, que segundo a física é gasoso, nesses ambientes se encontra num estado entre o gasoso e o sólido, estado esse fora das classificações atuais da ciência. O metrô Sé às 18h apresenta fenômeno semelhante. Deveriam estudar isso ao invés de irem plantar feijão no espaço.
Enfim, estava sozinho, como todos ali. Uma meia dúzia de corpos dentro dos seus ternos financiados na Colombo, com a camisa desabotuada e para fora da calça, suados, nó da gravata na altura do peito. Notei que eles trocavam olhares levantando as sobrancelhas, balançando suas cabeças e expirando profundamente pela boca, numa melancólica concordância de discordâncias, buscando conforto por comparação. Na vitrola, a canção A viagem, da eletrizante Roupa Nova, que embora seja boa música de uma boa banda, é requiem.
Olhei para trás e vi uma avenida que meu campo de visão não alcançava o fim. Olhei para dentro do bar e vi o que vi. Abaixei a cabeça, cocei a barba e um esboço involuntário de sorriso nasceu. Lembrei do amor que ainda não me falta. Ainda bem que nem entrei. Fui pela avenida em paz.
E.C.

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