terça-feira, 14 de junho de 2011

Chega às livrarias O Noturno de Havana - Como a Máfia Conquistou Cuba e a perdeu para a Revolução

Obra conta em detalhes as ações de líderes da Máfia, como Meyer Lansky e Charles “Lucky”,  a relação do governo da ilha caribenha com os Estados Unidos, Fidel Castro e Che Guevara.  Contempla ainda riquíssimo álbum de fotos, inclusive com imagem de pocket show de
Frank Sinatra para mafiosos em Havana, em 1947 


Bem antes de Fidel e Che desfilarem pelas ruas da capital cubana ou do embargo econômico que os Estados Unidos iriam impor a partir do golpe conta Fulgencio Batista, Cuba, em especial Havana, era o parque de diversões de mafiosos, celebridades e autoridades do mundo inteiro. Os investimentos norte-americanos na ilha, para se ter uma idéia, saltaram de 142 para 952 milhões de dólares no decorrer da década de 50. Neste período, crimes, política, drogas, luxo e muita jogatina tomavam conta da capital da mais famosa ilha do Caribe. É este pouco explorado trecho da história que é dividido com os leitores em O Noturno de Havana -  Como a Máfia Conquistou Cuba e a perdeu para a Revolução, obra assinada pelo escritor americano T.J. English e que chega ao Brasil pela Editora Seoman, com tradução de Santiago Nazarian.

Organizado em duas partes e 14 capítulos, o livro reúne pesquisa profunda do autor - incluindo entrevistas com sobreviventes da época – além de registros fotográficos raríssimos. Para citar alguns exemplos, Frank Sinatra (à direita) em um hotel se apresentando para um seleto grupo de mafiosos em Havana (1947); vítimas de uma das muitas chacinas ordenadas por Fulgencio Batista; o gangster Benjamin “Bugsy” Siegel clicado ainda na cena em que fora assassinado; Fidel e os primeiros combates na selva cubana (à esquerda); e o  Senador John F. Kennedy em um quarto de hotel: segundo o autor, em dezembro de 1957, Kennedy participou de uma orgia bancada por Santo Trafficante.
Mas, antes de todos esses acontecimentos, é preciso voltar a origem da questão. O Noturno de Havana parte da invasão de mafiosos americanos à Cuba, entre as décadas de 40 e 50: a maior parte deles fez fortuna durante “os gloriosos dias” de Lei Seca nos Estados Unidos fabricando e vendendo clandestinamente bebida alcoólica. De acordo com T.J. English, Havana era um verdadeiro playground para os líderes da máfia. Seus hotéis de luxo e cassinos formavam uma rede de entretenimento responsável por uma explosão turística sem precedentes na história. “É verdade que Cuba tinha um dos padrões de vida mais altos da América Latina, mas essa prosperidade não era espalhada homogeneamente pela nação”, afirma T.J. logo na introdução da obra. Fome, analfabetismo e altos indíces de mortalidade infantil eram enfermidades sociais visíveis nas ruas de Havana.

O baralho da Máfia
Provocado após a leitura da introdução, o leitor se depara com o primeiro capítulo do livro, intitulado O Sortudo Lucky. O protagonista em questão é Charles Luciano (ao centro da foto), apelidado Lucky, natural de Nápoles, Itália – conhecido reduto de mafiosos. Ele chegou à Cuba em 29 de outubro de 1946, após passar longos dez anos na prisão. Lá foi recebido pelo seu velho amigo, Meyer Lansky. Este, já chefe de jogatinas poderoso e reconhecido na ilha, cuidou para que não houvesse problemas na passagem de Lucky pela alfândega do aeroporto. Também não tardou a reencontrar o senador e narcotraficante (é isso mesmo), Suarez Rivas. Rapidamente, Lucky se tornou homem forte da Máfia Americana em Cuba.   

Mais adiante, a publicação cita um curioso e importante momento: a Conferência da Máfia de Havana, registrada inclusive no celebrado filme O Poderoso Chefão Parte II, de Francis Ford Coppola. O evento reuniu gângsters de diversas partes dos Estados Unidos, como Nova York, Chicago e Cleveland. Neste grupo haviam representantes e herdeiros da máfia siciliana, como Carlos Marcello. Vale destaque também para Santo Trafficante (de chapéu) que, aos 33 anos, era o mais jovem mafioso presente na reunião. Decisões, assassinatos, drogas, prostitutas e celebridades. Trafficante, Lucky e Lansky eram, em meados dos anos 50, os “reis de Cuba”. Mas as coisas iriam começar a mudar...

Fulgêncio, Fidel e Che
Em 10 de março de 1952, Fulgencio Batista y Zaldívar retomou o poder em Cuba. Ele já havia presidido a ilha entre 33 e 44 e, de acordo com as argumentações de T. J. English, não derramou uma só gota de sangue para retomar o poder. “Batista desfrutava de uma relação especial com os militares, uma vez que foi erguido do posto de soldado raso a sargento coronel antes de se tornar presidente”.

Para a máfia, a chegada ao poder de Fulgencio não era um problema, até porque o coronel via com bons olhos os milhões ali movimentados, além do potencial turístico que as apostas desenfreadas geravam. No entanto, o líder máximo da nação era altamente violento na repressão aos seus oposicionistas. Chacinas eram acontecimentos cotidianos nas ruas de Havana (imagem à esquerda). Esta postura estimulou ainda mais a oposição. Que começou a se organizar. Na liderança deste grupo, Fidel e Che.

A partir daí, não demorou muito para que as ambições da Máfia colidissem com os sonhos e ideais dos comunistas, cujos detalhes o autor captura, em uma batalha cultural épica. Em O Noturno de Havana -  Como a Máfia Conquistou Cuba e a perdeu para a Revolução Cubana, T.J English revela os detalhes desse emblemático período. A história já nos contou o fim.

Sobre o autor
T. J. English é o autor de Paddy Whacked e The Westies, ambos best-sellers americanos, e Born to Kill: America's Most Notorious Vietnamese Gang and the Changing Force of Organized Crime, que foi nomeado para o Edgar Award. Ele escreveu para Esquire, Playboy e a revista New York, entre outras publicações. Entre seus créditos como roteirista estão episódios de séries para a televisão como NYPD Blue e Homicide, pelo qual ele recebeu o Humanitas Prize. Atualmente, vive na cidade de Nova York. 

quinta-feira, 14 de abril de 2011

O Tempo

Acho incrível essa matemática do tempo.
O rumo que segue só pra frente, fazendo do passado, ausente;
do presente, instante; e o privilégio do futuro guardado aos persistentes.

Acho incrível, assim, a matemática do tempo.
O presente encorpado pelo passado, o futuro consciente a milhão na contramão que invade, determina, direciona as ações no tempo presente...

Presente nas mentes inquietantes de quem vive o passado ou o futuro, o medo paralisante do tempo presente...

Aquele que, em tempo presente, não ouve o sussurro que houve em tempo presente.

Acho incrível essa matemática do tempo,
Essa ciência exata fulminante neste aparente subjetivo acaso.
Empunhando a vela de acordo com o sopro do vento.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Por dentro do mercado negro da arte


Lavagem de dinheiro de drogas e escavações arqueológicas clandestinas que podem até resultar em uma exposição no Metropolitan de Nova York. É o que sugere relatório Stealing History, produzido pela mais antiga associação de museus do planeta.

Para falar de crimes envolvendo obras de arte é preciso esquivar-se dos mitos hollywoodianos que inundam o imaginário. O dito popular “a ocasião faz o ladrão” é carapuça que serve a museus, igrejas, casas de colecionadores e sítios arqueológicos no mundo inteiro. A Interpol soma mais de 34 mil itens furtados em todo o planeta, desde telas de autores famosos, como Pablo Picasso, até moedas históricas e sinos de igrejas - quase todos surripiados de maneira grotesca, simples e incrivelmente eficiente: apenas 10% foram recuperados.

O trabalho harmônico entre alarmes, câmeras, sensores de aproximação e fiscalização evitariam ou, no mínimo, reduziriam boa parte o número de episódios como estes? Talvez. Decerto, porém, que uma “câmera” não colocaria a leilão num site bielo-russo a tela “Jardim de Luxemburgo" (1903), do francês Henri Matisse, furtada em fevereiro de 2006 do Museu Chácara do Céu, no Rio de Janeiro. A obra “Vaso de Flor” (c.1930) de autoria do ítalo-brasileiro Alfredo Volpi, furtada da casa de um colecionador paulistano em março de 2002, também não apareceria em julho de 2009 em uma importante casa de leilão nos Jardins, bairro nobre de São Paulo, pela eficiência de um “sensor de aproximação”. O furto é apenas a primeira etapa de um submundo de estatísticas imprecisas, mas de muitas evidências.

Stealing History: The illicit trade in cultural material (Roubando História: o mercado ilegal na cultura) é um relatório produzido pela ICOM UK – Conselho Internacional dos museus (Reino Unido) – e a Museums Association – a mais antiga associação de museus do mundo, fundada em 1889. Embora publicado em 2000, o documento que faz uma leitura dos crimes desde os anos 60, é citado freqüentemente em reuniões das Organizações das Nações Unidas.

No capítulo Criminal aspects of the Illicit trade o relatório afirma que obras de arte e antiguidades roubadas podem ser utilizadas por traficantes de droga para lavar dinheiro, entre outros possíveis destinos. O esquema funciona assim: o traficante investe o dinheiro obtido na droga em obras de artes ou antiguidades roubadas e os coloca a leilão e o dinheiro volta limpinho, amparado por leis frouxas, por vezes até colaborativas em diversos países do mundo. No Japão, qualquer obra desaparecida por mais de dois anos pode ser comprada legalmente. Na Itália, se uma pessoa compra um quadro de um comerciante legítimo, que pode desconhecer que a obra era roubada, se torna possuidor por direito, para citar dois exemplos.

Em casos de áreas arqueológicas, bandidos recrutam a população local para trabalhar em escavações clandestinas, violações de tumbas e outros sítios e, posteriormente, podem negociar diretamente com museus, de acordo com o documento. Segundo a Coordenadora Geral de Bens Móveis e Integrados do IPHAN – Instituto Nacional do Patrimônio Histórico Nacional, Wívian Diniz, possivelmente isso está ocorrendo na Amazônia. “Não é difícil encontrar pontas de flechas ou utensílios indígenas fundamentais para a história em sites populares de compra e venda”, pontua.

O coordenador geral da Interpol no Brasil, José Ricardo Botelho, afirma que 90% das obras roubadas são recuperadas justamente quando reaparecem no mercado “formal” e, por vezes, na mão de uma pessoa que nem sabia que a obra era roubada. Vale lembrar que o banco de dados da Interpol é aberto, basta apenas realizar um pedido por uma senha no site da instituição.
O documento ainda pede que governos, curadores e profissionais das artes do mundo todo adotem medidas que certifique a origem lícita de uma obra ou artefato antes de comprá-la, prezando essencialmente o bem comum – a preservação de uma história em seu lugar de origem, ao invés de se deixarem levar por interesses privados. Pode até ser um desrespeito aos profissionais honestos, que são a maioria, claro.

Só que na primeira semana de junho deste ano, em Sofia, capital da Bulgária, ocorreu uma exposição com obras de colecionadores. É a primeira desde a implantação de uma lei que permite a legalização de obras de arte mesmo sem que o “proprietário” tenha como provar a sua origem. Mais um indício de que, mesmo após 10 anos, o relatório continua mais atual do que nunca.

Obras roubadas de dentro de um museu é um fato comum. Mas e quando o caminho é inverso: obras de arte roubadas são adquiridas por um museu?

Um fato grave envolvendo The Museum of Modern Art, o MoMA de Nova York é citado no relatório Stealing History. De acordo com o documento, em maio de 1969, o museu adquiriu um lote de antiguidades, mais tarde conhecida como o “Tesouro Lydian”, composto por 363 objetos, entre vasos de ouro e prata, jóias, um par de esfinges de mármore e algumas pinturas. Algumas obras foram expostas em 1984 sob o título “O Tesouro do Oriente Grego”.

Em 1987, o governo turco entrou com uma ação contra o museu afirmando que as obras foram roubadas de sítios arqueológicos da Turquia e exigindo devolução imediata. Em 1993, após um longo processo para comprovar a acusação, a Turquia repatriou seu patrimônio sem que o Metropolitan recebesse nenhuma compensação. O relatório afirma que o museu sabia que o material era roubado.

Louvre

Em outubro de 2009, o departamento de antiguidades do Egito rompeu relações com o Museu do Louvre, de Paris, que se recusou a devolver quatro artefatos arqueológicos supostamente roubados durante os anos 1980 da tumba do nobre “Tetaki", perto do templo de Luxor, afirmou em comunicado à imprensa na época o chefe do setor de antiguidades do Egito, Zahi Hawass.

É mais fácil roubar um museu do que um banco

Esse foi exemplo usado por Art Hostage, que possui um blog exclusivamente focado em crimes de obras de arte e se identifica como um ex-negociador clandestino reabilitado, ao ser questionado sobre as razões do crescente número de roubos desse setor.

“Se uma pessoa é presa com 1 milhão de dólares em drogas sua pena será infinitamente maior do que uma pessoa pega com 1 milhão de dólares em obras de arte ou antiguidades roubadas em qualquer país do mundo. Isso sem falar na execução do crime, que é muito mais simples”, explica.

Ele acrescenta também que, justamente por conta dessas “facilidades” um quadro não precisa ser negociado no valor do divulgado. “se uma obra vale 10 ou 100 milhões, não importa. Se for por encomenda, ganhando 10 mil em cada uma numa ação de 20 minutos, já é um negócio lucrativo”.

Crimes toscos

Veja seis crimes envolvendo obras de arte famosas. Nenhum aparato hollywoodiano.

• Em 12 de fevereiro de 1994, durante a troca de turno dos guardas, dois homens estouraram os vidros de uma janela do 2º andar da Galeria Nacional de Oslo, na Noruega e roubaram uma das quatro versões de “O Grito” (1893), do norueguês e um dos maiores nomes do Expressionismo Edvard Munch.

No lugar, deixaram um bilhete que dizia “Obrigado pela falta de segurança”. Para alcançar a janela, utilizaram uma escada que estava em uma construção ao lado do museu. O quadro foi recuperado e os ladrões presos no dia 7 maio do mesmo ano por um agente da Scotland Yard que se passou por curador do Museu Gety, da Califórnia, interessado em comprá-lo. O caso é citado em detalhes no livro O Grito Roubado, de Edward Dolnick.

• Em maio de 1998, um homem entrou na sala 67 do Museu do Louvre na hora do almoço, com o museu lotado, pegou uma tela de Corot e se mandou. Não havia câmeras naquela sala. O ladrão e a obra jamais foram encontrados.

• Em dezembro de 2002, ladrões invadiram pelo telhado o Museu Van Gogh, em Amsterdã, e levaram dois quadros do pintor. Os ladrões foram presos e condenados, mas as obras não foram encontradas.

• Em 22 de agosto de 2004, outra versão de “O Grito” foi roubada, junto com “Madonna”, também de autoria de Munch. Dois homens armados renderam um segurança do Museu Munch, fizeram todos os visitantes se deitarem no chão e fugiram. A obra encontrada dois meses depois

• Em dezembro 21 de 2007, dois homens arrombaram com um pé-de-cabra o porta que dá acesso ao 1º andar do MASP e roubaram “O Retrato de Suzane Bloch” (1904), de Picasso, e “O Lavrador de Café” (1939), de Cândido Portinari. As obras foram encontradas pela Polícia Federal duas semanas depois numa casa em Ferraz de Vasconcelos, periferia da cidade. Alguns envolvidos foram presos.

• Em 12 de junho de 2008, três homens armados invadiram a Pinacoteca de São Paulo ao meio-dia, renderam os recepcionistas, e levaram as telas “O pintor e seu modelo” (1927);“Minotauro, bebedor e mulheres” (1933), ambas de Picasso; “Mulheres na janela” (1926), de Di Cavalcanti; e “Casal” de Lasar Segall” (1919). Todas as obras foram recuperadas dois meses depois.

• Em 20 de maio de 2010, ladrões estouraram uma janela e arrombaram um cadeado do Museu de Arte Moderna de Paris para levar as obras "O pombo e as ervilhas" (1911), de Picasso; "A pastoral", de Matisse (1905); "A oliveira próxima ao estaque" (1906), de George Braque; "A mulher com leque" (1919), de Amadeo Modigliani; e "Natureza morta com candelabros" (1922), de Fernand Léger.


quinta-feira, 20 de maio de 2010

Cultivo do Vício

Contratos ilegais com fumicultores, casos de suicídios e exploração de trabalho infantil são algumas denúncias contra a indústria do tabaco. A passos lentos, Justiça responde às demandas em ações pontuais

Os danos provocados pelo tabaco não começam apenas quando um cigarro é aceso. Organizações e especialistas afirmam que desde seu plantio o fumo causa severos problemas à saúde ― físicos, psíquicos e sociais. As acusações mais pesadas, no entanto, colocam grandes empresas no patamar de criminosas.

“Para se ter idéia da dimensão do problema é preciso entender como funciona a indústria do tabaco. Crimes são praticados. Uns são disfarçados juridicamente, outros são negados e outros são acobertados politicamente”, afirma o advogado Guilherme Eidt, autor do livro Fumo – Servidão moderna e violação dos direitos humanos.

No Brasil a produção de fumo é desenvolvida em pequenas propriedades rurais da região Sul, em regime de economia familiar, onde crianças e adolescentes também estão a serviço da indústria do fumo.

“As cláusulas no contrato afirmam que o fumicultor só pode vender o tabaco para a empresa, que estabelece o preço do produto. Mas o fumicultor precisa dos equipamentos e dos agrotóxicos e estes também são comprados obrigatoriamente da mesma companhia e pagos em prestações”, explica Eidt. “A demanda é tanta que a família do fumicultor passa a trabalhar também para ajudá-lo a honrar tantos compromissos.”

Os números embasam sua tese. Segundo pesquisa realizada pelo Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes) no ano 2000 ― última sobre o assunto ―, só no Paraná cerca de 3 mil crianças e adolescentes de 10 a 17 anos trabalham em plantações de tabaco.

“A indústria não contrata diretamente as crianças, mas conta com sua mão-de-obra para definir a quantidade de tabaco a ser entregue pelo fumicultor no fim do mês”, afirma Paula Jonhs, diretora da ACTBrasil, organização focada em monitorar as estratégias da indústria do fumo.

Além da tragada

De acordo com o médico do Núcleo Avançado de Tórax do Hospital Sírio Libanês, Daniel Deheinzelin, durante o contato direto com as folhas de tabaco ― nas diversas etapas da produção de fumo ― ocorre absorção de nicotina da mesma forma que com os patches de nicotina (adesivo usado por pessoas para acabar com o hábito de fumar).

“Os fumicultores têm chances maiores de se tornarem tabagistas, pois a nicotina penetra pelos cabelos e pele atuando como imunodepressora sobre o organismo de quem a manuseia. E isto é particularmente mais grave nas crianças que trabalham nestas plantações”, afirma Deheinzelin.

Além dos males diretos provocado pelas substâncias tóxicas do tabaco, outra questão envolvida no assunto é a prevalência de problemas de saúde mental e de suicídios na área rural. Estudo realizado em 2000 pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC) no município de mesmo nome avaliou 308 trabalhadores: 138 (44%) deles atingiram pontuação compatível com nível de morbidade psiquiátrica. A freqüência de casos suspeitos foi maior em mulheres (60%) do que em homens (31,6%).

Em Venâncio Aires, cidade do interior do Rio Grande do Sul onde o plantio do tabaco é a atividade predominante de quase todos os agricultores, o número de suicídios é de 37,2 por 100 mil habitantes ― um dos índices mais altos do mundo. O estudo científico foi realizado pelo então deputado e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do RS, Marcos Rolim, em 1995.

Sem perspectivas

De acordo com o médico toxicologista da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Angelo Zanaga Trapé, que participou do estudo realizado pela UNISC, uma série de fatores colabora para o alto índice de suicídios. A renda média líquida dessas famílias, segundo a pesquisa, era de R$ 2.511,00 por família/ano, o que dá uma média de R$ 61,54 ao mês por trabalhador. Um terço do salário mínimo nacional da época.

Para Zanaga, é necessário um estudo mais atualizado. No mesmo município de Santa Cruz do Sul, o coordenador do Movimento dos Pequenos Agricultores, Wilson Rabuske, vem trabalhando junto às autoridades locais para realizar um estudo mais aprofundado sobre a relação do fumo com o suicídio em nosso município.

A lei

Baseado nas denúncias e nas evidências científicas, em dezembro de 2007 o Ministério Público do Trabalho do Paraná entrou com cinco ações contra as indústrias de tabaco que atuam na região. As empresas são: Souza Cruz, Alliance One Brasil Exportadora de Tabacos Ltda., A.T.C. (Associated Tobacco Company Brasil), CTA (Continental Tobaccos Alliance S/A), Kannenberg & Cia. e Universal Leaf Tabacos. Também foram citadas a Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra) e o Sindicato das Indústrias do Fumo (Sindifumo).

De acordo com a promotora Cristiane Sbalqueiro Lopes, do MPT do Paraná, os casos “se configuraram como sujeição dos fumicultores integrados a condições de escravo”. A Justiça do Trabalho de Curitiba (PR) determinou que as empresas abstenham-se de firmar contratos com cláusulas abusivas, como as que exigem dos agricultores exclusividade na venda do produto às empresas filiadas ao Sindifumo.

Também foi determinado que as indústrias do fumo deixem de fazer a classificação unilateral das folhas e de impor seu preço. As empresas não podem obrigar os agricultores a adquirir bens ou serviços, diretamente ou por terceiros, tais como insumos, fertilizantes, agrotóxicos e seguro da safra. A multa é de R$ 10 mil por contrato firmado, a ser revertida ao Fundo Estadual da Criança e do Adolescente (FIA).

Com relação à Afubra e ao Sindifumo, a Justiça do Trabalho determinou que os órgãos se abstenham de intermediar ou colaborar com a pactuação de contratos abusivos de compra e venda de fumo entre os pequenos agricultores e as indústrias fumageiras. Também não podem vender sementes, insumos, agrotóxicos e seguros de vida aos agricultores, sob pena de multa.

Sobre as denúncias de trabalho infantil, a promotora afirma que cabe à indústria contratante garantir que crianças e adolescentes não participem de qualquer etapa da produção do fumo e não apenas “pratiquem isso no papel”. O trabalho infantil é crime e a lei brasileira prevê, para a empresa condenada, multa de R$ 10 mil por criança e adolescente prejudicado. O papel do Ministério Público do Trabalho, diz Cristiane, está concentrado em “amarrar brechas jurídicas” e “direcionar para o verdadeiro culpado”.

“As empresas estabelecem no contrato que é proibido contratar crianças e adolescentes. Como a demanda exige mais mão-de-obra e a receita não permite que ele contrate um auxiliar, seus filhos passam a ajudá-lo. A indústria sabe disso, mas não se vê nem como parte do problema, embora seja a responsável direta”, afirma a promotora.

Outro lado

A Souza Cruz, por meio de sua assessoria de imprensa, afirma que seu relacionamento com os produtores de fumo, “além de legal e legítimo, é extremamente benéfico para o Estado e para os fumicultores”. Segundo a empresa, “a cultura do fumo na região Sul traz uma série de vantagens ao produtor, como a facilidade de financiamento, garantia de compra da totalidade da safra contratada, orientação agrícola e maior rendimento por hectare”.

Sobre as denúncias de conivência com trabalho infantil, a Souza Cruz diz que “estabelece como pré-condição para a contratação a assinatura de termo de adesão ao programa, pelo qual o produtor se compromete a não utilizar mão-de-obra infantil”. Além disso, a empresa afirma “desenvolver o projeto de Jornada Escolar Ampliada, que no estado de Santa Catarina beneficiou 22 municípios, 18 deles com o projeto em funcionamento e quatro outros em construção”.

Segundo Paula Johns, da ACTBrasil, a indústria do tabaco se esconde atrás de supostas benfeitorias para disfarçar alguns crimes. E conta com apoio político para isso. “Há notadamente uma base de parlamentares ligada à indústria do fumo e por isso as mudanças são apenas pontuais. No ano passado, a Souza Cruz fez uma doação de R$ 2 milhões à Câmara dos Deputados, para a compra de computadores. Esse dinheiro só não chegou até a mão dos parlamentares porque o Supremo Tribunal de Justiça proibiu a doação”, afirma.

Nota: Escrevi esta reportagem para edição de maio de 2008 da Revista ABCâncer. Já que nada mudou, a pauta ainda é pertinente.

sábado, 3 de abril de 2010

Com pipoca e Coca-Cola

O simbólico sorriso da pequena Isabella - exposto pela imprensa brasileira como banana na feira, assim como a estampa de Guevara em camisetas por aí - é retrato do que nem se remedia, nem se cura: se vende e é o que importa.

Pipoqueiros, flanelinhas, curiosos e “indignados” torciam com intensidade maior do que a Fiel Torcida pela condenação de Alexandre e Ana Carolina Jatobá – a madrasta. Aliás, a vilã perfeita para feitura de qualquer novela: bonitinha, ordinária e ainda por cima madrasta. Isabella, na ocasião, mera coadjuvante. Muitas pessoas sorriam envoltas em bandeiras do Brasil, num tom patriótico e coletivo absolutamente desprezível quando o que está em jogo é a memória única, individual e íntima de um ser humano.

O promotor Francisco Cembranelli desempenhou com eficiência sua tarefa e condenou o casal, num julgamento longo e cansativo. Ao fim do excelente trabalho, durante entrevista coletiva, porém, disse que a “postura da defesa valorizou a vitória da promotoria”. A frase estava dentro de um contexto amplo, lógico, mas sem querer colaborou para a atmosfera futebolística criada no local. Mano Menezes dá resposta semelhante ao fim das partidas.

Sobre a Jatobá: sairá da prisão em 8 anos e continuará bonitinha. Deve se casar e ter filhos. Guilherme de Pádua, que matou Daniela Perez a tesouradas em 1992, é referência semelhante: “pagou” pelo crime neste mundo cumprindo sua pena e, ao se converter evangélico, “fez acordo” com a chefia. Está livre e casado, inclusive. De certo que está mais feliz do que a mãe da moça assassinada – para a qual não foi ofertada proposta: teve de enterrar a sua própria filha e fim.

O caso do ônibus 174 virou filme. Certamente este também vai virar. Pela memória da pequena, algo que pouco se fala – e que, aliás, leva o nome da filha que um dia terei - proporcionem um final mais real que a realidade. Chamem o Tarantino para a direção.

Talvez os gordinhos apresentadores de jornais policiais fossem arremessados pela janela do Edifício London. Talvez o pipoqueiro surgisse com o mastro da bandeira brasileira atravessando o reto e saindo pela garganta. Talvez a madrasta fosse estuprada e esquartejada por Guilherme de Pádua na presença do Marido – que a ama tanto ao ponto de se livrar de uma prova de um crime: esta, por infelicidade do destino, a sua filha.

Não estou condenando ou ofendendo ninguém. Trata-se de mera ficção, assim como o caso Isabella, pela forma que nos foi contado.

Vai uma pipoquinha aí ?

E.C

segunda-feira, 15 de março de 2010

Quem disse que o amor não vai?

O último disco do pernambucano Otto não poderia ter recebido título mais certeiro: “Certa manhã acordei de sonhos intranqüilos”, lançado em 2009, é um trabalho sem começo e sem fim. Ele é todo meio, todo caminho, todo instante, todo sonho, todo real... Reflexões viscerais que não oferecem uma conclusão, uma sugestão, um destino a ser alcançado. Ele conta o que sente e o que se sente não há razão de ser, razão que não abraça ninguém num domingo de manhã, momento exato em que ouvi este disco.

Ambientadas por belíssimos arranjos, com destaques, em minha opinião, para as faixas Crua, Agora sim, Leite e 6 minutos, as poesias que dão vida ao álbum são cuidadosas em dividir e por isso acrescentam tanto. Não há nenhuma sacada genial, não há flerte com a dor de cotovelo: há um equilíbrio raríssimo entre melancolia, fatos e esperança.


“Dificilmente se arranca lembrança, lembrança, lembrança, lembrança...Por isso da primeira vez dói, por isso não se esqueça: dói. E ter que acreditar num caso sério e na melancolia que dizia...Mas naquela noite que eu chamei você fodia... fodia de noite e de dia.” É isso e pronto.


Otto é claro ao compartilhar sua confusão, algo incomum quando se fala em reorganização (ponto de partida para o recomeço), a meu ver, o fio condutor do disco - tanto para quem ouve, como para quem compôs. A razão não abraça ninguém num domingo de manhã.


E.C.

Baixe o disco:
http://www.mediafire.com/?1mjxyzzjdjj

quarta-feira, 10 de março de 2010

Agora é que são elas

Passei por um boteco bem bonito na segunda-feira. Daqueles que têm salsicha rosada ao molho que transmite leptospirose por aproximação, creio. Ciente do perigo, nem entrei. Mas a salsicha me encarava de longe. Teve uma hora que eu tive a nítida impressão de que uma delas se mexeu. Fingi que não era comigo. De longe avistei ainda o que me parecia um ovo amarelado envolto a um veludo marrom-pálido, que decodifiquei como uma coxinha que deveria estar ali curtindo a solidão e entregue ao desinteresse alheio, assim como todos os seres que vivem neste tipo de ambiente.

O ar, que segundo a física é gasoso, nesses ambientes se encontra num estado entre o gasoso e o sólido, estado esse fora das classificações atuais da ciência. O metrô Sé às 18h apresenta fenômeno semelhante. Deveriam estudar isso ao invés de irem plantar feijão no espaço.

Enfim, estava sozinho, como todos ali. Uma meia dúzia de corpos dentro dos seus ternos financiados na Colombo, com a camisa desabotuada e para fora da calça, suados, nó da gravata na altura do peito. Notei que eles trocavam olhares levantando as sobrancelhas, balançando suas cabeças e expirando profundamente pela boca, numa melancólica concordância de discordâncias, buscando conforto por comparação. Na vitrola, a canção A viagem, da eletrizante Roupa Nova, que embora seja boa música de uma boa banda, é requiem.

Olhei para trás e vi uma avenida que meu campo de visão não alcançava o fim. Olhei para dentro do bar e vi o que vi. Abaixei a cabeça, cocei a barba e um esboço involuntário de sorriso nasceu. Lembrei do amor que ainda não me falta. Ainda bem que nem entrei. Fui pela avenida em paz.

E.C.