domingo, 7 de março de 2010

Que eu me organizando posso desorganizar...

A ocupação que a ciência de Chico e a Nação Zumbi fizeram de suas alfaias, guitarras, mangues e caranguejos está feita. A trágica morte de Science, porém, abortou a última ruptura significativa da cena musical ocorrida no Brasil depois da Tropicália. Apesar dos esforços e dos bons discos lançados tempos depois pela Nação, Fred Zero Quatro, Mundo Livre e companhia, Science era a imagem, o agente comercial do movimento que colocou Recife nas páginas de cultura do mundo tudo. Ficou, mudou, valeu e ainda é. Mas poderia ser diferente.

A Ocupação Chico Science, em cartaz no Itaú Cultural até 4 de abril, conta um pouco dessa história. Textos na entrada da mostra amarram a realidade do Recife, do mangue, da sociedade, do manguebeat e dos caranguejos à nossa vida, ao nosso habitat. Os lambe-lambes espalhados na primeira sala ao som de “da lama ao caos” trazem o nostálgico entusiasmo transbordado por todos que, encantados, recebiam a boa-nova meio que desconfiados de que aqueles caras estavam fazendo história. E estavam mesmo. Shows em diversos países da Europa, Estados Unidos e nos principais festivais nacionais. Da lama ao caos.

Numa salinha ao fundo, caderninhos com as anotações de Chico e fotos pessoais do arquivo de sua irmã, entre outros materiais, humanizam o mito e evidenciam o comportamento simples a clareza de prioridades que Science aplicava a sua rotina. Família, música, noitadas, Recife. Clareza. Chico sabia o que queria. Neste espaço, o visitante pode sentar num dos banquinhos que ali estão e ouvir depoimentos das pessoas que compartilharam de algum momento com o mangue boy. Envolve.

Os textos produzidos no período, espalhados em uma das paredes, são cheios de ironia, de sarcasmo, mas sobretudo de verdades, que o tempo (ou as autoridades) não cuidaram de mudar. As telas touch screen num dos corredores são interessantes e proporcionam um mergulho no conceito do manguebeat, além é claro da coerente interatividade com o público defendida pelas vielas de Recife ainda no fim dos anos 80. Uma boa opção levando-se em conta o pouco espaço destinado à exposição. Uma das telas oferece um conjunto precioso de publicações de jornais e revistas do mundo inteiro, desde o estouro, até a morte de Science. No entanto, muitos textos estão absolutamente ilegíveis. Mas o esforço vale a pena.

Logo na entrada da exposição o visitante se depara com uma réplica do Landau que Chico guiava pelas ruas da Veneza brasileira. No fim da mostra, chega-se de novo ao símbolo que nos relembra que ele se foi. No porta-malas, um vídeo relata diversos acontecimentos, shows, baladas e entrevistas. Num deles, Rogê conta a história da soparia que abriu e de como ela se tornou o QG da cena cultural do mangue. Num certo momento, ele conta, em tom irônico e orgulhoso, que no começo alguns achavam que aquele espaço era um antro de loucos, bêbados e maconheiros. Como diria Chico: “mas há fronteiras no jardim da razão...”.

E.C.

Links:

http://www.itaucultural.org.br/ocupacao/  
http://www.josuedecastro.com.br/port/bio.html

Nenhum comentário:

Postar um comentário