Lavagem de dinheiro de drogas e escavações arqueológicas clandestinas que podem até resultar em uma exposição no Metropolitan de Nova York. É o que sugere relatório Stealing History, produzido pela mais antiga associação de museus do planeta.
Para falar de crimes envolvendo obras de arte é preciso esquivar-se dos mitos hollywoodianos que inundam o imaginário. O dito popular “a ocasião faz o ladrão” é carapuça que serve a museus, igrejas, casas de colecionadores e sítios arqueológicos no mundo inteiro. A Interpol soma mais de 34 mil itens furtados em todo o planeta, desde telas de autores famosos, como Pablo Picasso, até moedas históricas e sinos de igrejas - quase todos surripiados de maneira grotesca, simples e incrivelmente eficiente: apenas 10% foram recuperados.
O trabalho harmônico entre alarmes, câmeras, sensores de aproximação e fiscalização evitariam ou, no mínimo, reduziriam boa parte o número de episódios como estes? Talvez. Decerto, porém, que uma “câmera” não colocaria a leilão num site bielo-russo a tela “Jardim de Luxemburgo" (1903), do francês Henri Matisse, furtada em fevereiro de 2006 do Museu Chácara do Céu, no Rio de Janeiro. A obra “Vaso de Flor” (c.1930) de autoria do ítalo-brasileiro Alfredo Volpi, furtada da casa de um colecionador paulistano em março de 2002, também não apareceria em julho de 2009 em uma importante casa de leilão nos Jardins, bairro nobre de São Paulo, pela eficiência de um “sensor de aproximação”. O furto é apenas a primeira etapa de um submundo de estatísticas imprecisas, mas de muitas evidências.
Stealing History: The illicit trade in cultural material (Roubando História: o mercado ilegal na cultura) é um relatório produzido pela ICOM UK – Conselho Internacional dos museus (Reino Unido) – e a Museums Association – a mais antiga associação de museus do mundo, fundada em 1889. Embora publicado em 2000, o documento que faz uma leitura dos crimes desde os anos 60, é citado freqüentemente em reuniões das Organizações das Nações Unidas.
No capítulo Criminal aspects of the Illicit trade o relatório afirma que obras de arte e antiguidades roubadas podem ser utilizadas por traficantes de droga para lavar dinheiro, entre outros possíveis destinos. O esquema funciona assim: o traficante investe o dinheiro obtido na droga em obras de artes ou antiguidades roubadas e os coloca a leilão e o dinheiro volta limpinho, amparado por leis frouxas, por vezes até colaborativas em diversos países do mundo. No Japão, qualquer obra desaparecida por mais de dois anos pode ser comprada legalmente. Na Itália, se uma pessoa compra um quadro de um comerciante legítimo, que pode desconhecer que a obra era roubada, se torna possuidor por direito, para citar dois exemplos.
Em casos de áreas arqueológicas, bandidos recrutam a população local para trabalhar em escavações clandestinas, violações de tumbas e outros sítios e, posteriormente, podem negociar diretamente com museus, de acordo com o documento. Segundo a Coordenadora Geral de Bens Móveis e Integrados do IPHAN – Instituto Nacional do Patrimônio Histórico Nacional, Wívian Diniz, possivelmente isso está ocorrendo na Amazônia. “Não é difícil encontrar pontas de flechas ou utensílios indígenas fundamentais para a história em sites populares de compra e venda”, pontua.
O coordenador geral da Interpol no Brasil, José Ricardo Botelho, afirma que 90% das obras roubadas são recuperadas justamente quando reaparecem no mercado “formal” e, por vezes, na mão de uma pessoa que nem sabia que a obra era roubada. Vale lembrar que o banco de dados da Interpol é aberto, basta apenas realizar um pedido por uma senha no site da instituição.
O documento ainda pede que governos, curadores e profissionais das artes do mundo todo adotem medidas que certifique a origem lícita de uma obra ou artefato antes de comprá-la, prezando essencialmente o bem comum – a preservação de uma história em seu lugar de origem, ao invés de se deixarem levar por interesses privados. Pode até ser um desrespeito aos profissionais honestos, que são a maioria, claro.
Só que na primeira semana de junho deste ano, em Sofia, capital da Bulgária, ocorreu uma exposição com obras de colecionadores. É a primeira desde a implantação de uma lei que permite a legalização de obras de arte mesmo sem que o “proprietário” tenha como provar a sua origem. Mais um indício de que, mesmo após 10 anos, o relatório continua mais atual do que nunca.
Obras roubadas de dentro de um museu é um fato comum. Mas e quando o caminho é inverso: obras de arte roubadas são adquiridas por um museu?
Um fato grave envolvendo The Museum of Modern Art, o MoMA de Nova York é citado no relatório Stealing History. De acordo com o documento, em maio de 1969, o museu adquiriu um lote de antiguidades, mais tarde conhecida como o “Tesouro Lydian”, composto por 363 objetos, entre vasos de ouro e prata, jóias, um par de esfinges de mármore e algumas pinturas. Algumas obras foram expostas em 1984 sob o título “O Tesouro do Oriente Grego”.
Em 1987, o governo turco entrou com uma ação contra o museu afirmando que as obras foram roubadas de sítios arqueológicos da Turquia e exigindo devolução imediata. Em 1993, após um longo processo para comprovar a acusação, a Turquia repatriou seu patrimônio sem que o Metropolitan recebesse nenhuma compensação. O relatório afirma que o museu sabia que o material era roubado.
Louvre
Em outubro de 2009, o departamento de antiguidades do Egito rompeu relações com o Museu do Louvre, de Paris, que se recusou a devolver quatro artefatos arqueológicos supostamente roubados durante os anos 1980 da tumba do nobre “Tetaki", perto do templo de Luxor, afirmou em comunicado à imprensa na época o chefe do setor de antiguidades do Egito, Zahi Hawass.
É mais fácil roubar um museu do que um banco
Esse foi exemplo usado por Art Hostage, que possui um blog exclusivamente focado em crimes de obras de arte e se identifica como um ex-negociador clandestino reabilitado, ao ser questionado sobre as razões do crescente número de roubos desse setor.
“Se uma pessoa é presa com 1 milhão de dólares em drogas sua pena será infinitamente maior do que uma pessoa pega com 1 milhão de dólares em obras de arte ou antiguidades roubadas em qualquer país do mundo. Isso sem falar na execução do crime, que é muito mais simples”, explica.
Ele acrescenta também que, justamente por conta dessas “facilidades” um quadro não precisa ser negociado no valor do divulgado. “se uma obra vale 10 ou 100 milhões, não importa. Se for por encomenda, ganhando 10 mil em cada uma numa ação de 20 minutos, já é um negócio lucrativo”.
Crimes toscos
Veja seis crimes envolvendo obras de arte famosas. Nenhum aparato hollywoodiano.
• Em 12 de fevereiro de 1994, durante a troca de turno dos guardas, dois homens estouraram os vidros de uma janela do 2º andar da Galeria Nacional de Oslo, na Noruega e roubaram uma das quatro versões de “O Grito” (1893), do norueguês e um dos maiores nomes do Expressionismo Edvard Munch.
No lugar, deixaram um bilhete que dizia “Obrigado pela falta de segurança”. Para alcançar a janela, utilizaram uma escada que estava em uma construção ao lado do museu. O quadro foi recuperado e os ladrões presos no dia 7 maio do mesmo ano por um agente da Scotland Yard que se passou por curador do Museu Gety, da Califórnia, interessado em comprá-lo. O caso é citado em detalhes no livro O Grito Roubado, de Edward Dolnick. • Em maio de 1998, um homem entrou na sala 67 do Museu do Louvre na hora do almoço, com o museu lotado, pegou uma tela de Corot e se mandou. Não havia câmeras naquela sala. O ladrão e a obra jamais foram encontrados.
• Em dezembro de 2002, ladrões invadiram pelo telhado o Museu Van Gogh, em Amsterdã, e levaram dois quadros do pintor. Os ladrões foram presos e condenados, mas as obras não foram encontradas.
• Em 22 de agosto de 2004, outra versão de “O Grito” foi roubada, junto com “Madonna”, também de autoria de Munch. Dois homens armados renderam um segurança do Museu Munch, fizeram todos os visitantes se deitarem no chão e fugiram. A obra encontrada dois meses depois
• Em dezembro 21 de 2007, dois homens arrombaram com um pé-de-cabra o porta que dá acesso ao 1º andar do MASP e roubaram “O Retrato de Suzane Bloch” (1904), de Picasso, e “O Lavrador de Café” (1939), de Cândido Portinari. As obras foram encontradas pela Polícia Federal duas semanas depois numa casa em Ferraz de Vasconcelos, periferia da cidade. Alguns envolvidos foram presos.
• Em 12 de junho de 2008, três homens armados invadiram a Pinacoteca de São Paulo ao meio-dia, renderam os recepcionistas, e levaram as telas “O pintor e seu modelo” (1927);“Minotauro, bebedor e mulheres” (1933), ambas de Picasso; “Mulheres na janela” (1926), de Di Cavalcanti; e “Casal” de Lasar Segall” (1919). Todas as obras foram recuperadas dois meses depois.
• Em 20 de maio de 2010, ladrões estouraram uma janela e arrombaram um cadeado do Museu de Arte Moderna de Paris para levar as obras "O pombo e as ervilhas" (1911), de Picasso; "A pastoral", de Matisse (1905); "A oliveira próxima ao estaque" (1906), de George Braque; "A mulher com leque" (1919), de Amadeo Modigliani; e "Natureza morta com candelabros" (1922), de Fernand Léger.


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